Marcelo Sales

“Não adianta mergulhar de cabeça na transformação digital sem ter feito o dever de casa primeiro”

Blog Post created by Marcelo Sales Employee on Jun 18, 2018

Para Sergio Lozinsky, sócio-fundador da Lozinsky Consultoria, a transformação digital requer, antes de tudo, definição da estratégia e reestruturação do negócio

 

por Marcelo Sales*

 

A jornada digital está apenas no começo. Discutimos os efeitos da transformação nos mais diferentes setores de mercado, passando pela aplicação de tecnologias disruptivas, como inteligência artificial, e do uso de dados para geração de insights para os negócios. No entanto, antes de percorrer, efetivamente, as etapas mais avançadas desse caminho, existe o desafio de compreender as mudanças que, hoje, são essenciais.

 

Na visão do sócio-fundador da Lozinsky Consultoria, Sergio Lozinsky, essa transformação é muito mais profunda e requer, antes de tudo, uma reestruturação do negócio de acordo com a estratégia de crescimento da organização. Leia, abaixo, a entrevista que o consultor concedeu a este blog.

 

Texto 11_transformação digital__hitachi vantara.jpg

 

Marcelo - O mercado tem falado muito sobre transformação digital e estratégia de dados, mas nem sempre com uma percepção clara e profunda sobre o tema. Na sua visão, como as empresas estão lidando com essas novas ideias?

 

Sergio - Antes de qualquer coisa, acho importante destacar que a transformação digital é um termo muito amplo. É um tema adotado por empresas e bastante abordado em artigos, mas nem sempre isso se traduz em uma estratégia clara. Então, em termos de mercado, vemos situações díspares em relação ao entendimento do que significa transformação digital em cada negócio. O primeiro e grande desafio, portanto, é entender o que ela representa para cada segmento econômico e empresa.

 

Já a estratégia de dados está amarrada ao conceito. Ao entrar no mundo digital, a organização percebe que precisa ter mais informações sobre clientes, produtos, aplicações de soluções e ferramentas e concorrentes, por exemplo. Mas a questão é que arquitetura de dados é considerada responsabilidade, principalmente, da TI, o que faz esse aspecto ainda ser visto como técnico, não estratégico. Coletar dados e convertê-los em informações úteis são responsabilidades que vão além da TI. Assim como a transformação digital como um todo, esse processo deve estar no nível de negócios.

 

Marcelo - E como você, no papel de consultor, avalia o entendimento do mercado com relação a essa união entre transformação e dados?

 

Sergio - De forma geral, o mercado ainda está na primeira onda. Tem um caso ou outro de sucesso apresentado em congressos, que seja realmente válido. Existe muito o que aprender ainda, porque falta experiência.

 

No mundo da transformação digital, a base de operação, que é a arquitetura de sistemas das empresas, precisa estar muito bem montada. Não adianta mergulhar de cabeça nisso sem ter feito o dever de casa. É preciso garantir o funcionamento de sistemas que suportam as operações e que eles estarão relacionados a aspectos como controle, logística, custos, planejamento e orçamento. Áreas e fases devem funcionar perfeitamente e de forma integrada para facilitar o salto do analógico ao digital, que engloba transformação digital, estratégia de dados, internet das coisas (Internet of Things, ou IoT), entre outros. Do contrário, o esforço e o custo para entrar com sucesso na nova fase serão muito maiores.

 

Marcelo - Qual é o fator impeditivo da amarração dos conceitos citados?

 

Sergio - É preciso entender, de uma vez por todas, que transformação digital não é um problema só da área de TI. Estamos falando de um tema estratégico e que corresponde, também, à área de negócios. Obviamente, a TI tem uma função muito importante porque possui mais informações sobre ferramentas, novidades, tecnologias. Então, sim, a área deve alimentar o negócio, de maneira estruturada, com informações sobre as mudanças e possíveis impactos. Mas atribuir essa responsabilidade apenas a ela é um dos principais erro.

 

Veja, a TI pode liderar esse processo por sua natureza técnica. Mas transformação digital significa um entendimento, por parte do negócio, sobre as possibilidades das novas tecnologias no mercado e avaliação sobre como usá-las para inovar ou manter competitividade. TI e áreas de negócios precisam caminhar juntas.

 

Marcelo - Quem são os profissionais que participam desse processo de profunda transformação?

 

Sergio - Eu diria que a empresa tem que trazer pessoas, em alguns casos, com outras experiências e não necessariamente do mesmo segmento de negócio da organização. O setor financeiro, por exemplo, vem enfrentando há anos o processo de transformação digital, o que significa que os profissionais desse segmento têm experiências interessantes e que podem ser aplicadas em outros mercados.

 

Fazer uma mudança importante na organização pode exigir a adequação de perfis. A empresa precisa ter uma equipe com um misto de características - veia inovadora combinada com experiência - que possa provocar novas ideias. É um mundo piloto que está entre erros e acertos, em que tudo deve ser feito e refeito rapidamente.

 

Marcelo - De que tipo de perfil profissional estamos falando aqui?

 

Sergio - Acredito que sempre teremos dois tipos de perfis profissionais: o generalista e o especialista. Para implementar as soluções, o especialista é fundamental, pois ele garante o bom funcionamento da tecnologia. Já no momento de desenhar ações e planejar, o generalista, que tem capacidade de navegar bem no negócio de ponta a ponta, ajuda a entender o que é preciso para fazer tudo isso acontecer. Essa ideia vale tanto para o prestador de serviço quanto para o colaborador interno.

 

Marcelo - Quais são os principais erros cometidos por CIOs e equipes de TI nesse momento? Quais são os desafios a serem superados?

 

Sergio - Eu destacaria três principais erros. O primeiro é encarar a transformação com desespero e, por medo de ficar para trás, entrar no mundo digital sem uma estratégia clara. A empresa sente que não vai sobreviver ao processo de transformação e copia modelos que considera estarem dando certo no mercado.

 

O segundo é subestimar o tamanho do problema e criar um pequeno grupo ou iniciativa, imaginando que não será necessário modificar muito a organização. Não dá para deixar que o processo de transformação digital seja comandado por duas ou três pessoas. Ele tem que permear a empresa como um todo. É até possível ter um grupo que lidere, mas não é responsabilidade de um departamento específico. Deixar que uma pessoa pense no futuro de uma organização inteira atrasa bastante a evolução.

 

O terceiro está relacionado à arquitetura tecnológica. Na transformação digital, quase tudo ocorre em tempo real e o cliente tem mais visibilidade do processo interno da empresa da qual adquire um serviço ou produto. Antes de mudar, portanto, exige-se um conjunto de sistemas, ferramentas e tecnologias bem implantados, integrados e seguros. Mas, nem sempre as empresas fizeram o dever da casa completo.

 

Marcelo - Toda empresa precisará passar por uma transformação?

 

Sergio - Sim, mas em situações diferentes. O varejo precisa revisitar formas de pensar e oferecer o produto para o cliente final constantemente, caso contrário, não sobrevive. Em uma indústria pesada, como a de aço e alumínio, por exemplo, o grau de preocupação é menor, ou seja, a aplicação da tecnologia acontece, mas não é tão urgente quanto no primeiro caso. No mundo B2B, sempre existirá um segmento digital, então, vejo que toda empresa precisará passar, sim, pela transformação, mas com níveis de intensidade e complexidade diferentes.

 

*Marcelo Sales é Diretor de Arquitetura e Pré-vendas da Hitachi Vantara LATAM

Outcomes