Marcelo Sales

“O ponto de virada já passou há muito tempo: ou muda, ou se perde”

Blog Post created by Marcelo Sales Employee on Aug 14, 2018

Para o especialista Cezar Taurion, as empresas não podem mais esperar que o cliente se ajuste à oferta; esse é o primeiro passo da transformação digital

 

por Marcelo Sales*

 

Há alguns anos, com a expansão do uso de smartphones, as empresas passaram a falar do movimento Bring Your Own Device (BYOD, ou traga o seu próprio dispositivo), que provocou inúmeras discussões sobre renovação da arquitetura de sistemas e segurança da informação. Com a mesma rapidez com que surgiu, esse termo caiu em desuso, dando lugar a novas tecnologias e tendências. É o caso da Inteligência Artificial (IA), que, de todas as tecnologias debatidas na atualidade, possui o maior potencial disruptivo.

 

Da mesma forma que o BYOD mexeu com as estruturas tecnológicas corporativas, a IA, ao conquistar os usuários, estimula um novo debate: o que será necessário para que empresas e usuários finais se adaptem a esse mundo que une inteligência humana e artificial? Na visão do consultor e presidente do Instituto de Inteligência Artificial Aplicada (i2a2), Cezar Taurion, assim como os smartphones tornaram-se, rapidamente, parte do nosso dia a dia, em poucos anos, estaremos tão acostumados com a IA.

 

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Entenda a percepção do especialista na entrevista que ele concedeu a este blog:

 

Cezar, a inteligência artificial não afeta apenas as empresas, e a sociedade como um todo, que já está sendo transformada. Mas de que forma a massificação do uso da IA pelo usuário final vai impactar a arquitetura de tecnologia das empresas?

 

Cezar Taurion - A inteligência artificial, de alguma forma, já está em nosso dia a dia,  mesmo que a gente não perceba, por conta de aplicativos como Netflix, Amazon e Uber. Nos próximos cinco a dez anos, com o seu desenvolvimento, outros dispositivos e aplicações ganharão ainda mais força, especialmente no dia a dia organizacional. E isso implica ter a visão clara de que o cliente está no centro do negócio, ou seja, esse é o primeiro passo para entender como a massificação de IA vai mudar o ambiente das organizações.

 

O modelo que guia as empresas, hoje, ainda é o inside out, aquele em que o cliente se ajusta ao que a empresa oferece. É raro, ainda, encontrar organizações que façam o caminho inverso. Essa transformação será a base para entender outras mudanças que esse cenário demanda.

 

Nesse contexto, a arquitetura tecnológica precisa ser extremamente ágil e flexível. Ainda existem empresas que acreditam no paradigma de que qualidade não coexiste com velocidade, mas, como bem sabemos, no mundo digital, tudo está em constante variação. Além disso, é preciso se antecipar às necessidades do cliente o máximo possível, algo que os algoritmos preditivos já permitem fazer.

 

E sob o aspecto de gestão de segurança da informação? O que muda com o surgimento de novas leis, como o GDPR (General Data Protection Regulation, ou Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados)?

 

CT - Segurança da informação sempre será um tema crítico. A tecnologia baseada em dados evoluiu rapidamente e sem a preocupação adequada. Essas leis - como o GDPR, o próprio Marco Civil da Internet, de 2014, e a recente Lei Geral de Proteção de Dados do Brasil - visam garantir que os dados não sejam usados de forma indevida, mantendo a privacidade dos mesmos.

 

A verdade é que todo mundo, de alguma forma, é vigiado 24 horas por dia por conta da internet das coisas e de tecnologias baseadas em ciência de dados e analytics. O ponto central está em saber como balancear a privacidade e a funcionalidade, e essas regras ajudam nisso.

 

No lado empresarial, a equipe de segurança da informação vai ter cada vez mais trabalho, obviamente, para garantir a proteção do ambiente corporativo e dos dados críticos da empresa. As políticas precisam estar sempre atualizadas, mitigando riscos e garantindo atualizações contínuas, especialmente na era da IA.

 

Quais são os principais desafios que devem ser superados, hoje, para que as empresas consigam absorver o real valor da inteligência artificial?

 

CT - O primeiro desafio das organizações é compreender que estamos no mundo digital. Ponto. Por incrível que pareça, a grande maioria das empresas ainda não sabe o que é esse mundo. A transformação digital não trata apenas de tecnologia, mas também de transformação dos negócios por meio da tecnologia. O que mais se vê no mercado, entretanto, são empresas que se dizem digitais, mas não possuem um negócio verdadeiramente digital porque não pensam de maneira digital.

 

Costumo usar um exemplo clássico: em 1910, Henry Ford desenvolveu o primeiro modelo de linha de produção de montagem, um clássico que foi reproduzido no mundo todo durante anos. É de se pensar que, com tanta evolução tecnológica, esse modelo inexiste em fábricas de produção, mas se formos a uma grande montadora, hoje, o modelo continua o mesmo, com a única diferença de que as pessoas foram substituídas por robôs. Percebe que isso não é transformação digital? É apenas automação.

 

Falar de inovação, inteligência artificial e mudança de mentalidade no negócio é ir sempre além. Voltando ao exemplo de produção automobilística, esse ir além pode ser usar impressoras 3D para imprimir carros personalizados, com as características do comprador, por exemplo. Falo de uma empresa real. Isso é inovador e transforma a sociedade.

 

É claro que essas mudanças não acontecem de um dia para o outro. A tecnologia permite fazer várias coisas diferentes e a convergência entre múltiplas opções resulta em possibilidades extraordinárias. Combine tudo isso com o avanço da IA e os insights que os dados podem fornecer e veremos disrupções acontecendo na prática, com mais celeridade. Mas é preciso ter visão do negócio no futuro e senso de urgência para saber como utilizar essas informações de maneira sagaz.

 

Estamos atrasados?

 

CT - Olha, essas mudanças vão acontecer, de uma forma ou de outra. Em cinco ou dez anos, nós não estaremos falando sobre inteligência artificial, porque esse conceito já será inerente à nossa sociedade. A evolução é exponencial e os próximos 20 anos apresentarão mudanças tão ou mais disruptivas das que vivemos nas últimas seis décadas. Mas não adianta falarmos sobre inteligência artificial e dados se os profissionais ainda não compreenderam que eles precisam olhar para o negócio de uma forma diferente. O ponto de virada já passou há muito tempo: ou muda, ou se perde.

 

*Marcelo Sales é Diretor de Arquitetura e Pré-vendas da Hitachi Vantara LATAM

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